Ponto de Partilha - Fábio Brazil

Fábio Brazil
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DA ARTE DE FICAR EM CASA

Fábio Brazil
24 Março 2020
Incrível como coisas que aconteceram há duas semanas parecem agora tão distantes no tempo que sequer as percebemos como recentes, salva-nos uma certa sincronia, que às vezes, só entendemos quando ela se impõe e nos assombra.

Essa não é uma sensação nova desde que fomos imersos nos meios digitais de interação, algo no tempo e na nossa relação com ele se transformou para sempre. O passado amontoou-se no atual; o futuro transformou-se no agora e desapareceu; o presente permanece inacessível.

Em meio a isso, algo de muito novo nos atingiu, estamos invadidos por uma dimensão temporal estranha, numa quarentena planetária, vivendo um tempo desconhecido no qual tudo que foi parece distante e nada do que virá parece reconhecível. Restam as permanências e as sincronias.

Há um mês recebi o convite do poeta Frederico Barbosa para participar de uma homenagem ao centenário de João Cabral de Melo Neto. Fred é uma permanência para mim. Apesar da pouca diferença de idade, nos conhecemos estando ele como meu professor de Literatura no Colégio Equipe, era a estreia dele como docente e a minha como seu admirador.

O evento, homenagem a João Cabral, outra permanência para mim e certamente para o Fred, aconteceria no dia 15/03 e os convidados foram instados a declamar um poema de João Cabral ou algum próprio que dialogasse com a obra cabralina.

Fiquei uma semana pensando em qual poema levaria. De João Cabral são tantos os imprescindíveis que apenas de procurar qual declamaria voltei a ter o mesmo prazer de quando os descobri, anos atrás.

Nesse retorno, nesse momento de reencontro com o Fred e com João Cabral, acabei revendo poemas meus que ecoavam Cabral - muitos apenas exercícios canhestros de cópia - mas um se impôs pedindo para que eu o retrabalhasse. Parecia meu, tem a sombra da árvore maior, mas pareceu-me um fruto próprio. Recuperei o poema. Trabalhei com algumas tintas atuais a tela já iniciada tempos atrás. Estava pronto!

Certo que declamaria A MULHER E A CASA de João Cabral e levaria o meu FICAR EM CASA. Como sabemos, o evento, como tantos outros, ficou esvaziado pelo perigo das aglomerações e eu, por idade e prudência, fiquei de fato em casa espantado pela sincronia do meu poema com o que se tornaram os dias de quarentena em que ainda estamos imersos.
 
 
FICAR EM CASA
 
 
Ficar em casa
não é sobre o lá fora
o que se teme ou se ignora
não é
sobre o por fazer
que se traz ou fica
não é sobre isso
        ou aquilo
é sobre aqui
mas não agora
senão um sempre e
dentro.

Não é sobre o sol ou o vento
que se perde ou entra
não é sobre paredes
antes
é sobre janelas e portas
e o aberto antes e
dentro.

Não é sobre o número
de passos ou posses
que cabe no espaço
é sobre o nome
que se meia
quando se entra
e entremeia
ou se está
dentro.

Ficar em casa como quem está
e estar como quem sempre
vem e entra e senta e janta
visita que fica
e come o que se arranja
no círculo mínimo
e íntimo
de um prato pleno
do que se fez
dentro.



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